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Além do Cessar-Fogo: Estratégias, Fragilidades e Consequências do Memorando de Entendimento (MoU) no Oriente Médio

Daniel Sheanan Colmenero Lin

13 de jul. de 2026

Uma análise das negociações que levaram ao MoU, das fissuras que ameaçam sua implementação e dos riscos políticos para EUA e Israel caso de falha nas expectativas, enquanto o Irã busca transformar a sobrevivência do regime em vantagem geopolítica.

O tempo mostrou que a aposta na derrubada do regime da República Islâmica do Irã foi um grande equívoco de avaliação do Mossad e de seus ramos enraizados na inteligência dos EUA. Esperava-se que a queda dos pilares de governança iraniana abrisse caminho para uma revolta popular no Irã orquestrada por Donald Trump, mas ao invés disso, os bombardeios assassinando a cúpula iraniana, bem como civis e crianças fermentaram uma República mais forte, coesa e mais desafiadora.

 

 

Plano B: Memorando de Entendimento (MoU)

A frustração das expectativas aliada ao fechamento do estreito de Ormuz impondo uma crise global no petróleo forçou os aliados pró-sionistas a considerarem um plano B — um estratagema baseado no atual Memorando de Entendimento (MoU), cujos termos levariam, na prática, ao desarmamento do país por meio de um acordo nuclear que deixaria o Irã totalmente vulnerável devido às suas exigências de inspeções surpresa e intrusivas da AIEA, com acesso irrestrito a qualquer local como instalações subterrâneas secretas, além de interrogatórios de cientistas e integrantes de instituições de pesquisa. É improvável, no entanto, que o Irã deva aceitar essas aspirações de Trump na prática.

 

Outra expectativa é costurar a desidratação do Hezbollah por meio de um acordo de desarmamento separado concretizado por facções do governo libanês subservientes que pressionariam o movimento ao norte, enquanto ao sul haveria neutralização da resistência palestina, inspirada no "Programa de Aldeias Estratégicas" do Vietnã — precursor do reassentamento forçado em "campos de concentração" isolados e cercados.

 

Em terceira instância, objetiva-se neutralizar a Resistência Iraquiana por meio de um novo primeiro-ministro aliado aos EUA, Ali al-Zaidi, que, sob o pretexto de uma campanha anticorrupção apoiada por Washington, exige o desarmamento da resistência iraquiana até 30 de setembro. A neutralização da resistência iraquiana é considerada fundamental para viabilizar uma incursão na Síria — realizada pela milícia jihadista do presidente Jolani — em direção ao norte do Líbano para fechar o cerco ao Hezbollah.

 

Em suma, o plano B propõe um processo de pacificação abrangente aliado à liberação do trânsito livre e sem taxas pelo estreito de Ormuz visto como uma manobra de Trump para mitigar a pressão dos neocons insatisfeitos com as concessões feitas ao Irã no Memorando de Entendimento (MoU). Alon Ben David, correspondente militar israelense do Canal 13, afirmou que a guerra inverteu o jogo. Antes dela, Israel poderia ser considerado a principal potência militar da região, contando com o apoio americano. Depois dela, o Irã passa a ser a potência mais significativa devido a isenções na exportação de petróleo, ao descongelamento de $ 24 bilhões em fundos, e um pacote de $ 300 bilhões em assistência para reconstrução do país, o levantamento de sanções norte-americanas, além de outros benefícios do acordo. Isso tornaria o Irã numa forte potência capaz de municiar clandestinamente os Houthis e o Hezbollah. Segundo Amos Harel, analista militar do jornal Haaretz, o acordo de Trump com o Irã representou a maior falha de segurança de Netanyahu desde o ataque do Hamas em 7 de outubro de 2023.

 

O plano de pacificação também possui fragilidades óbvias. O Secretário de Estado norte-americano Marco Rubio foi incumbido de supervisionar a aproximação entre o establishment de Beirute e Israel. No entanto, o documento que propõe o desarmamento do Hezbollah carece de legitimidade — contradiz a Constituição libanesa e exigiria aval do gabinete e a aprovação do Parlamento para ter qualquer validade ou significado. Ao excluir o Irã da estrutura de coordenação libanesa, o acordo entre Israel e Líbano inviabiliza as negociações de Vance destinadas a supervisionar o cumprimento do Memorando de Entendimento no Líbano. A sensação é a de que o pacto tripartite de pacificação no Líbano deixa uma ferida aberta onde um "cessar-fogo no Líbano e a retirada israelense" são fundamentais para o funcionamento do MoU. Há quem diga que Netanyahu preparou o terreno para que Ron Dermer – designado por Netanyahu para conduzir a interlocução estratégica de Israel sobre o Líbano – levasse Rubio a sabotar o MoU. Dermer trabalhou em um plano que previa uma reorganização gradual do sul do Líbano, com manutenção temporária da presença israelense em determinadas áreas até que o Exército libanês assumisse o controle e o Hezbollah fosse desarmado. Rubio apresentou o entendimento como um primeiro passo para restaurar a soberania libanesa, condicionando a retirada israelense ao avanço do desarmamento do Hezbollah e ao fortalecimento das Forças Armadas.

 

Assim, temos agora uma rivalidade dentro da Casa Branca em torno do Irã (Vance vs. Rubio) ao passo em que o MoU cai em desuso, “respirando por aparelhos”.

 

 

Risco Político Pode Inverter as Expectativas Iniciais do Conflito?

Paralelamente, há sinais de desgaste político potencial: o ex-chefe do Estado-Maior israelense e líder da oposição, Gadi Eisenkot, principal rival de Netanyahu nas próximas eleições criticou duramente declarações de Benjamin Netanyahu segundo as quais o Irã já possuía bombas nucleares. Eisenkot afirmou: "O Irã não tinha nenhuma bomba nuclear. Ele está fabricando uma realidade para assustar o público israelense". A mesma cobertura informa que Eisenkot disse estar familiarizado com as avaliações de inteligência sobre o programa nuclear iraniano e rejeitou a narrativa apresentada por Netanyahu. Da mesma forma, o ex-primeiro-ministro Naftali Bennett contestou a versão de Netanyahu. Segundo os relatos, Bennett afirmou que dizer que o Irã já possuía bombas nucleares era "uma mentira" e acusou Netanyahu de tentar "reescrever a história" ("engineering reverse history" ou "rewrite history", conforme a tradução utilizada pelos veículos).

 

O fato de essas críticas terem partido de Eisenkot e Bennett é particularmente relevante porque ambos não podem ser facilmente caracterizados como favoráveis ao governo iraniano. Pelo contrário: Eisenkot comandou as Forças de Defesa de Israel e teve acesso direto às avaliações de inteligência durante sua carreira. Bennett foi primeiro-ministro de Israel e sempre defendeu uma linha dura em relação ao Irã. Uma possível mudança no pêndulo político em Israel não representaria, no entanto, uma mudança político partidária abrupta. Eisenkot estaria mais próximo do centro de segurança do que da esquerda. Ou seja, sua eventual eleição representaria uma mudança importante em governança, coalizões e estilo político, mas não uma ruptura com os pilares da política de segurança israelense.

 

Do outro lado, Trump lida com um desgaste visível da opinião pública e com a necessidade urgente de abrir totalmente o Estreito de Ormuz para evitar uma crise econômica ainda maior. Pesquisas recentes indicam 65% de desaprovação dos americanos sobre as políticas de Trump para com o Irã. As eleições de meio de mandato nos EUA (midterm elections) são particularmente importantes porque podem alterar o equilíbrio de poder em Washington. Se a oposição conquistar a maioria em uma ou nas duas Casas do Congresso, o presidente pode enfrentar maiores dificuldades para aprovar leis, confirmar indicações e conduzir sua agenda política. Já a próxima eleição presidencial ocorrerá em 7 de novembro de 2028, tal que Trump ainda tem tempo hábil para contornar a crise política instaurada com a guerra no Irã.

 

À medida que surgem fissuras em Washington, e com o Irã cada vez mais desconfiado das oscilações de humor de Trump, o MoU revela-se um engodo destinado apenas a abrir o Estreito a fim de reabastecer as reservas estratégicas de petróleo dos EUA e do Ocidente, enquanto se avalia o que os EUA poderiam fazer em relação aos demais pontos do acordo antes de atacar o Irã, tanto indiretamente contra aliados da resistência, quanto de forma mais contundente. A opinião na crucial Assembleia de Especialistas do Irã endureceu contra qualquer concessão do Irã aos EUA, especialmente no que diz respeito a permitir a passagem de embarcações pelo Estreito de Ormuz. O consenso é manter a pressão iraniana sobre Ormuz até que a dor se torne aguda.

 

A nova escalada ocorre após uma sucessão de incidentes envolvendo operações israelenses contra alvos ligados ao Hezbollah e respostas atribuídas ao Irã e a grupos aliados, com cada lado acusando o outro de violar o espírito do Memorando de Entendimento. Trump pode até ameaçar aniquilar o Irã caso o país não se curve diante dele, mas é duvidoso que os EUA consigam manter por muito tempo sua presença militar na região com a escassez de munições. Ainda assim, uma nova rodada de ataque militar norte-americano de curta duração e caráter "performativo" contra o Irã é possível, mas traria poucos resultados — e nenhum de natureza estratégica. Logo, quem sai perdendo nesta guerra? Netanyahu que agora enfrentará uma situação eleitoral extremamente difícil. O triunfo de Israel no Oriente Médio não se concretizou e acabou deixando o Irã mais forte e a influência de Israel sobre os EUA, até então inabalável, começa a ser questionada. A proximidade das eleições de meio de mandato nos EUA e das eleições legislativas em Israel também tendem a constranger uma escalada em larga escala cujos resultados podem ser imprevisíveis.

 

Depois de tudo, a herança da guerra tem se mostrado uma batata quente nas mãos do bloco sionista. Após o assassinato de Khamenei, figura com a qual se sabia com quem estava lidando, ascendeu ao poder uma liderança mais imprevisível e com sede de vingança e de poder.

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